São Paulo vai muito além de ser o maior centro gastronômico do Brasil. A cidade é um caldeirão de culturas, onde receitas surgem do encontro entre costumes, ingredientes e a pressa do dia a dia. Em botecos de esquina, cantinas tradicionais, restaurantes famosos e lanchonetes que funcionam madrugada adentro, nasceram pratos criados para alimentar trabalhadores, reunir pessoas e aproveitar o que havia disponível. Com o tempo, essas receitas ultrapassaram gerações e se tornaram símbolos da capital.
São Paulo, 472 anos
Do virado à paulista, herança das antigas rotas tropeiras, ao popular bolovo dos bares, passando pelo cuscuz paulista e pelo clássico arroz biro-biro, este roteiro apresenta preparações que têm a cara de São Paulo e ganharam o Brasil. Mais do que comida, são histórias servidas no prato — um convite para celebrar o aniversário da cidade provando sabores que ajudam a explicar a alma da maior metrópole do país.
Cuscuz Paulista

Símbolo da cozinha afetiva paulista, o Cuscuz Paulista é fruto direto do encontro entre culturas que moldaram a mesa do estado. Herdeiro do cuscuz de origem árabe — trazido pelos portugueses e adaptado no Brasil colonial —, ganhou identidade própria a partir do uso do milho, ingrediente abundante no interior de São Paulo.
Ao longo do tempo, incorporou elementos da culinária caiçara e tropeira, como camarão, ovos, sardinha e legumes, refletindo tanto a vida no litoral quanto a dos caminhos do interior.
“Mais do que uma receita, o cuscuz paulista é memória afetiva em forma de comida. Ele carrega a miscigenação brasileira e está sempre presente nos almoços de família, nas festas populares e nas mesas de domingo, onde a tradição segue viva”, diz o chef Fellipe Zanuto, do restaurante Hospedaria (Rua Clodomiro Amazonas, 216 – Itaim Bibi).
Virado à Paulista

Nascido das necessidades dos bandeirantes nos séculos passados, o Virado à Paulista é um prato símbolo de São Paulo. A preparação foi criada, na época do Brasil Colônia, como forma de alimentação dos bandeirantes durante as expedições. Alimentos como o feijão, a farinha e as carnes chacoalhavam e ficavam revirados, dando origem ao nome do prato.
Com o tempo, essa mistura simples evoluiu para a versão completa que conhecemos hoje, composta por feijão virado com farinha, acompanhado de couve, ovo frito, torresmo e bisteca, tornando-se o almoço tradicional das segundas-feiras em São Paulo.
A tradição é mantida viva em diversos estabelecimentos, sendo possível saborear versões clássicas e aprimoradas do prato, como a oferecida pelo Pirajá (Av. Brigadeiro Faria Lima, 64 – Pinheiros): o Virado à Pirajá (R$69). Essa montagem completa inclui arroz branco, tutu de feijão preto, farofa de cebola, couve refogada, bisteca grelhada e ovo frito.
Arroz Biro-Biro

Criado na famosa Churrascaria Rodeio – em alta na época –, o Arroz Biro-Biro é um clássico que nasceu da informalidade. A receita surgiu quando o jornalista Tarso de Castro pediu um arroz mais incrementado para acompanhar o contrafilé. O maître Cecílio adicionou ovo frito ao arroz, e outro amigo sugeriu batata palha, criando a base do prato. Com o tempo, ingredientes como cebola, cebolinha e bacon foram incorporados.
“O nome foi dado pelo maître Cecílio, que achou que a mistura lembrava o cabelo loiro e encaracolado do jogador de futebol Biro-Biro”, conta Sylvio Lazzarini, à frente do Grupo Varanda.
O prato caiu no gosto dos demais clientes e passou a ser reproduzido em casas tradicionais da cidade, como o Varanda D.inner (Rua Prudente Correia, 432 – Jardim Europa) (R$46 a porção).
Beirute

São Paulo é o lar da maior comunidade libanesa do mundo fora do Líbano, que ao longo de sucessivas gerações deixou marcas na cidade. É justamente na gastronomia que está uma das influências mais notórias dessa imigração, com receitas que já nos são tão familiares que parecem ter nascido aqui, como a esfiha e o kibe.
Outro item comum nos restaurantes de comida típica é o Beirute, clássico sanduíche no pão sírio que também pode ser encontrado em padarias e lanchonetes. Este, no entanto, é sim uma criação paulistana. Bruno Sabbag, sócio do restaurante árabe Sabah (Avenida Paulista, 735, Club Homs, Bela Vista), explica que o beirute surgiu na capital nos anos 50.
“O nome foi dado apenas como uma homenagem à capital do Líbano!”
Na casa, o beirute é montado com kafta e mussarela, sendo possível escolher entre os molhos de alho, taratur de gergelim, homus, coalhada seca ou babaganush, e sai por R$60.
Coxinha

A coxinha é um dos salgados mais emblemáticos do Brasil, sua origem é controversa. Na versão mais popular, resgatada em um livro sobre a cidade Limeira, a receita teria sido criada na Fazenda Morro Azul, que hospedou Dom Pedro II em 1886. Conta-se que o filho da Princesa Isabel tinha restrições alimentares e só comia coxas de frango. Quando as coxas faltaram, a cozinheira improvisou, usando frango desfiado e batata para moldar a massa no mesmo formato. A receita fez sucesso, foi aprovada pela Imperatriz e se popularizou.
A popularidade da coxinha se mantém firme, sendo possível encontrá-la em estabelecimentos como a Esquina do Souza (Rua Coronel Melo de Oliveira, 1066 – Pompéia), que tem coxinha de frango com requeijão, a partir de R$12 a unidade. No Bar Original (Rua Graúna, 137 – Moema) tem a “Coxinha Original” (R$47 a porção), feita com massa de batata baroa, frango desfiado e Catupiry.
Bolovo

Um ovo cozido, envolto em massa de carne moída, formando um bolinho que depois é empanado e frito. Espécie de descendente o scotch egg britânico, o bolovo se popularizou nos botecos paulistanos, sobretudo a partir dos anos 2000. Amado pela sua simplicidade e sabor marcante, no Câmara Fria (Rua Graúna, 137, Moema, em cima do Bar Original) ele é servido em sua versão tradicional (R$18, a unidade). Já no Rabo di Galo (Rua Itapeva, 435, Bela Vista), bar de alta coquetelaria localizado dentro do Rosewood São Paulo, o quitute ganha uma releitura sofisticada: o Bolove de Frango e Caviar (R$135).
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